Eu não sei qual o problema da vizinha, juro que eu não sei. Problemas mentais? Isso é fato, ela tem. Mas daí a implicar comigo, daí a achar que quem tem parafusos a menos sou eu e não ela, é um pouco demais pra que eu compreenda.
De início, logo quando veio morar aqui, disse pra minha mãe que eu precisava tomar um sol, que estava amarela, que isso parecia coisa de doente. Tipo, conheço você, amor? Quem é você pra opinar na minha amarelice? Licença? Vá cuidar da sua vida, beijos e morra? Então eu abstraí. Deixa pra lá, ela é maluca mesmo.
Depois resolve arrombar a porta da minha casa (praticamente isso), num sábado pela manhã (gente vagabunda DORME sábado pela manhã, alguém avisa a ela?) e reclama porque eu não abri.
E isso não é tudo, claro. Dá pra fazer um livro, quando estiver mais velha, sobre as peripécias que essa coisa anormal daqui de baixo me fez passar. Mas hoje, quinta-feira normal de julho de dois mileoito, a coisa resolveu atacar mais uma vez.
Minha pessoa está no quarto, ouvindo música, respirando, sossegada, feliz e saltitante, quando Lisa (minha cadela) começa a latir. Não é do feitio dela latir, só quando é pra chamar atenção mesmo, porque ela dá umas crises emos de olhe-pra-mim-estou-aqui-pedindo-um-pouco-da-sua-atenção e não pára se você não olhar pra ela. Daí fui lá ver. "Quié, Lisa, que cê qué?" (Sim, eu converso com ela), e ela continuou a latir. "Deve ter pirado". Volto pro quarto, pra minhas músicas, pro meu muquifo.
"Ô, seu Jorge!" (Jorge é o irmão da minha mãe, a praga que mora aqui), ela grita da garagem. "Tá não", eu digo, pondo minha cara linda pela janela da sala.
Até aí, tudo bem. É normal encherem meu saco perguntando cadê esse ser. Mas aí eu ouço vozes vindas do andar inferior:
"Ah, liguem não. Essa menina daí de cima é assim mesmo. Nunca abre a porta pra ninguém, que coisa, né? Mas cês voltem depois, que logo ele chega."
Eu estava ouvindo música, entende? Não dá pra saber se tem alguém batendo na porta ou coisa do tipo. Não dá pra adivinhar. E agora sou tratada como a anormal de cima que nunca abre a porta. Coisa linda. Amo essa mulher. Amo.